14/01/2026 15h47

Projeto vai fornecer sementes da Mata Atlântica para agricultores capixabas implantarem agroflorestas

Foto: Acervo do Projeto.

A Fazenda Experimental do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), em Venda Nova do Imigrante, ganhou recentemente uma Área de Coleta de Sementes com Matrizes Selecionadas (ACS-NM). A iniciativa vai possibilitar, a partir de 2027, o fornecimento de sementes nativas da Mata Atlântica para agricultores capixabas que queiram implantar ou ampliar Sistemas Agroflorestais (SAFs), que combinam o cultivo de espécies florestais com culturas agrícolas, promovendo produção de alimentos e conservação ambiental.

O projeto é desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), sob coordenação da professora Cristiane Coelho de Moura, e conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).

A expectativa é atender produtores rurais de diferentes perfis e escalas, que demandem sementes tanto para a implantação ou ampliação de agroflorestas quanto para o cumprimento da legislação ambiental, especialmente no que se refere às Áreas de Preservação Permanente (APPs) e à Reserva Legal.

Pesquisadores selecionaram árvores matrizes com potencial para uso produtivo e ambiental   Foto: acervo do projetoPesquisadores selecionaram árvores matrizes com potencial para uso produtivo e ambiental Foto: acervo do projeto Pesquisadores selecionaram árvores matrizes com potencial para uso produtivo e ambiental Foto: acervo do projetoA Área de Coleta de Sementes foi implantada em 2025, em um fragmento florestal de cerca de 32 hectares, onde foram selecionadas árvores matrizes com potencial para uso produtivo e ambiental. Entre elas estão o pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha), angico-vermelho (Anadenanthera colubrina), canela-preta (Nectandra membranacea), pau-pereira (Platycyamus regnellii), garapa (Apuleia leiocarpa), pata-de-vaca (Bauhinia forficata), sapucainha (Carpotroche brasiliensis), além de espécies ameaçadas de extinção, como o palmito-juçara (Euterpe edulis) e o jequitibá-rosa (Cariniana estrellensis). 

A coleta de sementes já começou, mas, neste primeiro momento, está voltada às análises laboratoriais. Segundo a pesquisadora do Incaper Alessandra de Lima Machado, esses estudos avaliam viabilidade, tolerância ao armazenamento e qualidade fisiológica do material. A distribuição para os agricultores está prevista para as etapas finais do projeto, após a conclusão dos testes.

“É importante coletar sementes de áreas como essa porque elas reúnem condições ecológicas, genéticas e ambientais estratégicas para a produção de material de alta qualidade, essencial para ações de restauração e sistemas produtivos sustentáveis”, explica Alessandra.

O fragmento apresenta um histórico de regeneração natural passiva de aproximadamente 40 anos, resultando em populações bem estabelecidas e adaptadas às condições de clima e solo. “A coleta nessas condições assegura variabilidade genética, maior capacidade de adaptação das mudas e maior sucesso no estabelecimento em campo, reduzindo riscos de mortalidade e falhas em projetos de restauração e implantação de SAFs”, acrescenta a pesquisadora.

Benefícios dos Sistemas Agroflorestais

O fomento à formação de SAFs cumpre papel estratégico tanto do ponto de vista produtivo quanto ambiental. “Esses sistemas são utilizados para a recuperação de áreas degradadas e também para a adequação legal da propriedade, como a recomposição de Reserva Legal exigida para o Cadastro Ambiental Rural”, cita Alessandra.

O uso de espécies nativas torna os SAFs mais resilientes às mudanças climáticas, uma vez que as plantas estão adaptadas às condições locais de clima e solo, ajudam a proteger e melhorar a qualidade do solo, regulam o microclima, sequestram carbono e aumentam a biodiversidade.

“A presença de espécies nativas favorece a retenção de água, reduz o estresse hídrico e térmico das culturas e aumenta a estabilidade do sistema ao longo do tempo. Elas também contribuem para a manutenção da fauna silvestre, fornecendo alimento e abrigo para polinizadores, dispersores de sementes e inimigos naturais de pragas, fortalecendo serviços ecossistêmicos essenciais à produção agrícola”, afirma a professora Cristiane Coelho de Moura.

Além disso, as espécies selecionadas pelo projeto apresentam potencial de uso múltiplo e geração de renda, incluindo produção de madeira, frutos, óleos essenciais e aplicações medicinais. “Essa abordagem permite conciliar a recuperação ambiental com a diversificação produtiva e econômica das propriedades, fortalecendo modelos de produção sustentáveis e resilientes”, destaca Alessandra Machado.

Embora o atendimento aos agricultores seja o foco da iniciativa, a ACS-NM também deverá apoiar ações de interesse público. Parte das sementes será destinada, por exemplo, à Prefeitura de Venda Nova do Imigrante, para uso no viveiro municipal e em atividades de reflorestamento.

A previsão é que a ACS-NM esteja tecnicamente estruturada e validada até julho de 2027, quando poderão ser iniciadas atividades de capacitação, visitação técnica e coleta para distribuição, sempre de forma planejada e sob a gestão do Incaper.

“Queremos tornar essa área um espaço estratégico de integração entre pesquisa, extensão e educação, promovendo a conservação e o uso sustentável das florestas nativas, ao mesmo tempo em que contribui para a formação técnica, científica e ambiental da sociedade”, conclui Alessandra Machado.



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